terça-feira, 28 de setembro de 2010

Hello from T.

Quando fingi que te vi pela primeira vez,
já te sabia muito bem.
Ja havia lambido teus olhos senis
e mordido tuas pernas estúpidas.

Macrofísica do domínio.

Teu refinado gosto por haikais
pedia, cada vez mais
que eu enchugasse meus versos

Teu despotismo intelectual
comeu minhas rimas
e condenou-me à mudez.

sábado, 17 de julho de 2010

Para sempre meu Caio F.


Não fazia a menor idéia do que postar nesse blog, que já anda meio vazio faz muito tempo. Mas num lapso de memória (confesso que oportunamente ajudado pela voz da Ângela Rorô, que começou a cantar “Amor, meu grande amor” no meu rádio.), pensei em Caio.

Não. Essa idéia não foi tão espontânea assim, acabo de me lembrar o que se passou. A música citada faz parte de um dos meus contos preferidos do escritor gaúcho. Na verdade é o meu conto preferido, e eis o maior problema de uma grande admiração: a gente não consegue escolher únicas coisas, é sempre “uma das” dentre todas as que eu mais gosto... Pronto! Tomei coragem e elegi “os sobreviventes”, do livro “Morangos mofados” como o meu conto preferido. Mas que ironia! Eu resolvi falar de coragem justamente enquanto eu falava de um homem que esfregava toneladas de coragem em nossas caras. Caio era livre e talentoso ao ponto de nos prender em seus emaranhados de papel, seu modo de escrever assemelhava-se a um suspiro: leve, tranqüilo e vitalmente espontâneo.

Ainda hoje, quando tenho alguma atitude movida por impulso, penso em Caio. Não! Penso no Caio do conto “E o destino desfolhou”, que sem pestanejar lança duras palavras à Beatriz: - Tu sabias que tu vais morrer? Contudo, continuo lançando duras palavras ao vento, e os contos mofados são minha espécie de passeio pelo meio do caminho dessa estrada dantesca.

Espero, em páginas, o dia em que Urano entrará em Saturno, o dia em que eu poderei chamar inteligência de epifania e, principalmente, o dia em que os meus morangos verdes envelheçam e morram. Mas amanhã eu posso detestar esses contos. Amanhã eu acordarei e também não haverá o Caio.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

"Eu fico triste quando chega o carnaval !" (L. Melodia)

Cocktail Party
Não tenho vergonha de dizer que estou triste
Não dessa tristesa ignominiosa dos que, em vez
de se matarem, fazem poemas:
Estou triste porque vocês são burros e feios
E não morrem nunca...
Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a vermelhão.
E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!
Mas como são belos os filmes coloridos!
(ainda mais os de assuntos bíblicos...)
desde o crepúsculo
E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se
em todas as poças dágua,
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!
(Mário Quintana)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

quinta-feira, 29 de outubro de 2009




Dentes e pernas.

Tinha então a idade de 22 anos, era inteligente e até bem quista. Às vezes, acreditava que chegaria a obter sucesso na vida, e essa crença vinha de uma inesgotável fonte de livros de auto ajuda que se empilhavam ao lado da sua cama. Tinha poucos sonhos, por vezes queria apenas ser amada por um homem nem feio, nem bonito, nem alto, nem baixo, nem rico, nem pobre, e diante desse desfile de "não qualidades", ia se mantendo sozinha. Mantivera-se sozinha desde sempre: filha única, mãe morta e pai desaparecido do seu R.G. Tivera, logo cedo, que trabalhar na rua de calçados da Rua 18, e fazia isso como se fosse de vital importância para a sua existência. E era.
A sua enfadonha e rodopiante vida seguia o mesmo curso inerte de sempre quando, numa certa manhã, deparou-se com as tais manchinhas brancas. Eram, na verdade, amareladas e tomavam o canto esquerdo do seu pescoço. No primeiro instante, riu imaginando aquelas manchas tomando-lhe a face inteiramente, uma espécie de anti-Dorotéia, onde a beleza inexistente despedia-se de vez do seu corpo esquálido. No minuto seguinte, deseperou-se e chegou a derramar lágrimas, que logo fizeram cintilar aqueles beijinhos de cloro no tecido da sua pele, mas chorar não lhe serveria de muita coisa, e num raro momento de racionalidade, pensou todas as suas poucas economias e saiu rumo ao primeiro médico que encontrasse, mas, para isso, enrrolou um lenço vermelho no seu pescoço, o qual lhe conferiu a aparência de enfeite natalino.
A consulta médica pareceu-lhe pouco produtiva: apenas algumas orientações e uma interminável lista de remédios. O tratamento até que começou a surtir um tímido efeito, e logo o lenço natalino foi substituído por uma série de colares, que de tão berrantes, chamavam ainda mais a atenção apara as suas ainda perceptíveis manchas. Ao contrário de qualquer pessoa de bom senso, os olhares alheios de nojo lhe faziam fremir de contentamento, sentia-se cada vez mais notada. Como havia esperado tanto ? Ou melhor, como havia esperado que uma doença lhe apontasse a necessidade de tais acessórios que tanto valorizavam o seu colo ? A sequência de colares e olhares lhe deram tanta auto confiança que um dia resolveu ir trabalhar sem colar algum, mas a idéia não pareceu muito boa, de modo que no seu intervalo de almoço, ele retornou para casa como que tomada por uma peculiar cólera. Entrou no seu quarto e livrou-se rapidamente dos livros e dos remédios, e como tudo o que havia lhe restado eram 15 minutos e o lenço vermelho, saiu pela calçada exibindo garbosa o seu adorno natalino, e riu desesperadamente dos olhares qua a aguardavam, das vozes que a seguiam, do seu homem sem predicativos e do seu novo colar de pérolas meio brancas, meio amareladas, encrustadas no seu pescoço, que pouco a pouco, ganhariam mais brilho e beleza.